Sorriso largo...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A ESCRITA FEMININA NA LITERATURA DE CORDEL

Rosário Pinto e Dalinha na abertura da exposição Júlia Lopes de Almeida (poeta e romancista do final do século XIX e início do XX, que viveu exclusivamente de literatura) na Sala de Leitura da Escola que carrega seu nome.
Os tempos passam, mas os valores precisam ser reafirmados a cada dia. Para a mulher o lema é o de reafirmar-se a cada momento. Mesmo nos dias atuais a mulher ainda sofre preconceitos e discriminação pelo simples fato de ser MULHER. O seu saber é, muitas vezes, visto como especial, e não natural.
A primeira mulher que publicou, em 1938, o fez sob o pseudônimo masculino de Altino Alagoano, foi assim que Maria José das Neves Batista Pimentel assinou seu folheto. Somente a partir de 1970 é que se pode verificar a autoria feminina em publicação de folhetos de cordel. A figura da mulher sempre apareceu com características de – virtude, honestidade, beleza e, sob a ótica masculina e, com cunho moralizante. A mulher, na sociedade patriarcal, era reclusa, aos cuidados do lar e a educação dos filhos, à satisfação social do marido. Sua educação não ia além da possibilidade de contar histórias e contos de encantamento para os filhos, das cantigas de ninar; ler e escrever livros de receitas, quando muito. Valia o jargão: “se uma mulher aprende a ler, será capaz de receber cartas de amor”. A estrutura de reclusão era imposta de forma muito velada e justificada como “zelo familiar”. Havia os gêneros de leitura mais adequados para as mulheres, face à moral e aos bons costumes. Ainda assim, algumas mulheres, neste jogo de poder burlavam a vigilância patriarcal ou dos maridos e apoderavam das formas poéticas executadas pelos homens Veja a quadrinha popular do início do século XX, abaixo:
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“Menina que sabe muito
É menina atrapalhada,
Para ser mãe de família,
Saiba pouco, ou saiba nada.”

A mulher, no início do século XX, quando os folhetos de cordel proliferaram no Nordeste, na ausência de jornais, rádios e televisão, era descrita como: princesa – obediente e calada diante dos valores paternos, da sociedade e da religião; mãe devotada, esposa exemplar - àquela que protege o lar e filhos dos perigos, defensora da moralidade. O contrário disso era descrito como perigos para a manutenção da estrutura familiar. A mulher que se atrevesse a elaborar versos de cordel era vista como em luta contra o diabo, a serpente e, isto como castigo por suas ações. A prostituição é tema de contraponto relevante entre poetas para exemplificar e exaltar a virtude e, castigar as atitudes “inadequadas para uma mulher”, dessa forma fazia-se valer os valores da moralidade vigente. 
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*Leia aqui o folheto de Maria das Neves Batista Pimentel, filha do poeta e editor Francisco das Chagas Batista, O viulino do diabo ou o valor da honestidade, publicado em 1938, sob o pseudônimo de Altino Alagoano. Isto porque ninguém compraria um folheto escrito por mulher. Nestes primeiros momentos de composições femininas, elas ainda reproduziam os valores temáticos masculinos. Somente recentemente esses valores foram deixados de lado e as mulheres buscam firmar suas próprias visões do mundo e da sociedade.
Vale esclarecer, nos últimos anos, a presença assídua das mulheres na publicação de folhetos. Podemos afirmar que, hoje, a mulher trouxe para a literatura seu olhar intuitivo e suas preocupações com as temáticas e os problemas sociais que ainda enfrenta, perante uma sociedade que engatinha na legislatura em favor dos direitos da mulher em todas as vertentes do conhecimento humano.
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São muitas as poetisas na literatura de cordel atualmente. E elas estão por aqui, por aí e acolá: nas páginas de Face, em canais de youtube, em blogs específicos e autorais e, em outros cantos e recantos da cultura popular. Também buscam a inspiração das musas, visto serem elas próprias “poetisas de musa cheia”. Navegam por todas essas redes virtuais com muita desenvoltura.
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“Divina musa! inspirai-me,
Para narrar uma história
Que, os menestréis me contaram.
Mulheres de amor e glória,
Ilustraram os romances
De beleza e vitória.”
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Meus poetas cordelistas
Hoje, venho vos narrar,
As histórias do passado, 
De princesas vou falar,
Vivendo encasteladas,
Querendo o amor desfrutar
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Nosso mundo evolui
Hoje a mulher determina
Que norte dará à vida
Mesmo sendo nordestina
Não carrega o estigma
Daquela pobre menina.
*
Hoje ela tem profissão
Escolhe a vida que quer
Sem preconceito que diga
Se meretriz, ou qualquer!
Conquistou a felicidade
O orgulho de ser mulher.
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Texto :Rosário Pinto

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