Os grandes romances na
literatura de cordel, pelo olhar dos valores veiculados, em especial à condição
dos direitos da mulher
Já publicado no sitio CORDEL DE SAIA, ensaio mais genérico
intitulado A produção feminina na
literatura de cordel – um novo olhar. Agora, retomo os grandes romances,
mas focada nos valores tradicionais veiculados, em especial àqueles que dizem
respeito à condição da mulher, na trajetória da literatura oral. É peculiar
observarmos que até os nossos dias ainda não se tenha legislação definida de
proteção aos direitos da mulher. Li, recentemente, PARECER do Comité Económico e Social Europeu sobre a Erradicação da violência doméstica contra
as mulheres (parecer de iniciativa) Relator: Mário Soares, apresentado em Bruxelas, 18 de setembro de 2012.
Fiquei perplexa com os dados ali apresentados, especialmente por se referir a
União Européia, Imagine, agora, a quantas andamos no Brasil?
Vamos, então, aos nossos romances.
Em
linhas gerais os grandes romances poéticos seguem padrões similares aos
romances em prosa, acompanhe alguns aspectos, como: critérios rigorosos de
forma, conteúdo e apresentação.
Forma
-
estabelecer
nas primeiras estrofes, sempre em sextilhas, como sempre nos alertou Rodolfo
Coelho Cavalcante e tantos outros poetas, o enunciado do tema que vão narrar;
-
explicitar
o caminho de suas narrativas;
-
criar
a expectativa para o “grande final”
– se vitoriosos ou trágicos;
-
chamar
a atenção do leitor para o processo
narrativo (modalidade poética; metrificação; e formatação física): sextilhas,
7 sílabas, 32 páginas, tamanho 12 x 15cm; e,
-
cuidar
bem da elaboração da capa; da
seleção do título (o mais sugestivo que a imaginação do poeta lhe permitir),
também são atributo essenciais ao sucesso do romance.
Performance
-
o narrador-poeta é peça fundamental para obter
a atenção do ouvinte-leitor – sua entonação, suas pausas propícias, estabelecem
um clima de tensão, mantendo o ouvinte-leitor atento e curioso para o desfecho
da narrativa. Os primeiros romances poéticos vindos de tradições orais, e como
tal, eram cantados e/ou declamados em
praças, feiras e festas públicas. Destacando aí o importante papel do cantador,
que de feira em feira, cidade em cidade, eram os responsáveis pela vendagem dos
“romances”. Sobre a figura da cantador escrevi o poema O poeta e o folheteiro, 2012, publicado pela Cordelaria Manoel
Monteiro, Campina Grande, Paraíba.
-
Venda: à época das grandes produções
tipográficas, a conquista da venda, diferente dos romances em prosa, dependia
da performance do cantador e/ou declamador. O desembaraço, a perspicácia e
astúcia, eram fatores determinantes para garantir a boa vendagem.
Os
romances são norteados por ingredientes comuns, tanto em prosa como em versos:
Temas
-
o
amor, encantamento e aventura, são os mais recorrentes e
continuam a chamar a tenção do leitor, mesmo no dias atuais;
-
a
figura da mulher é presença marcante em todos os romances e, vale a pena
acompanhar sua trajetória. Escrevi o poema A
mulher e sua trilha, ainda inédito.
Nos
primeiros grandes romances a figura da mulher sempre esteve presente e
apresentada sob vários pontos de vista:
-
a
esposa-mãe, zelosa de seu marido e casamento e da guarda e educação dos filhos,
esta foi a principal característica atribuída à mulher naqueles tempos, nos
romances medievais, lá na Europa;
-
a
mulher sob a ótica do divino: a virtude das santas, e das musas, a filha
obediente e casta, acima qualquer suspeita de conduta (a pura e casta), a quem
dirigem seus apelos pela capacidade de inspiração poética:
Manoel
Camilo dos Santos, um de nossos grandes romancista inicia o romance com todos
os apelos comuns aos grandes narradores. Veja em A rainha da floresta e a
fera humana, (1958), todos estes ingredientes, fundamentais. Veja abaixo:
”Eu combinei com Apolo
Com Minerva e com Diana
Para escrever essa história
Que até o título é bacana
A rainha da floresta
Inclusive a fera humana.”
Segue
deixando claros os papéis da mulher (esposa / filha / meretriz). Chama a
atenção para as consequências do rompimento dos valores estabelecidos, seja por
vontade própria seja por infortúnio (assalto, roubo, “sedução” ou outra
agressão qualquer).
“(...)
A donzela
que não desse
valor a honestidade
estragasse o seu papel
de pudor e castidade
tinha que ser castigada
com grande severidade
E quando uma dessa estava
esperando a descansar
assim, que focava boa
o rei mandava botar
o seu filhinho nas matas
p’ra qualquer fera devorar.
Dizia o rei: - eu não quero
geração de meretriz
sabemos que a má árvore
só dar o fruto infeliz
e o filho de bom casal
deixa a nação feliz.”
Estabelece
aí a dicotomia do BEM e do MAL, de acordo com os valores morais e sociais
vigentes.
Nas
primeiras estrofes abaixo o poeta descreve reino em que há somente um herdeiro.
Entretanto, acontece o imponderável para um reinado feliz: a morte súbita do
rei, que deixa seu filho, Valdomiro, na orfandade:
“(...)
Quando o príncipe Valdomiro
Já contava nove anos
o sopro da desventura
veio perturbar seus planos
a desdita deu-lhe um beijo
com seus lábios desumanos
Veio a morte de surpresa
roubou-lhe a felicidade
matou seu querido pai
ainda na mocidade
envolvendo Valdomiro
no manto da orfandade”
À
quinta página do folheto, como nos bons romances, o poeta faz uma pausa e...
anuncia mudar de assunto, mudar o rumo da prosa. Este anúncio é mais um gancho
a ser conectado mais à frente...Veja:
sábio rei
tinha sido condenada
A tal moça de quem falo
chamava-se Teodora
tinha dezenove anos
linda como a deusa Flora
porém, o seu sofrimento
se eu contar o leitor chora.
Foi vítima de sedução
de um malandro infiel
o qual retirou-se quando
manchou da jovem o papel
obrigando a miserável
beber a taça de fel.
Ela ocultou-se do povo
para não à ver talvez
mas coitada quando estava
nos atos da gravidez
o vassalo prendeu ela
com tamanha estupidez.
E disse para o carrasco:
quando ela descansar
não terá nem o direito
de ao filho amamentar
leve a criança p’ra mata
e lá é p’ra degolar.”
O
leitor pode observar a dureza do tratamento impingido às mulheres que por
vontade ou ingenuidade rompiam com os valores tradicionais.
A
partir desse momento o poeta narra a morte da mãe, não socorrida e a entrega da
criança sobrevivente ao carrasco, que, por pena, diante de sua beleza, não
executa sua tarefa, ao contrário, a abandona no deserto... Neste deserto
morava uma velha feiticeira, que viu um homem abandonar um embrulho e sair
correndo... A feiticeira desconfiou e...
aproximando-se do local, encontra a criança! Toma para sim os cuidados e a
batiza de Flor dos Campos e, informa:
“(...)
Assim foi ela crescendo
com seu gesto de princesa
só tendo sido a propósito
da Divina Natureza
que até Venus invejava
a sua grande beleza.”
Neste
ponto nosso narrador retoma a história do reinado do principezinho Valdomiro. O
rei, seu pai antes de morrer, encarregou um sábio amigo para conduzir o reinado
até a maioridade do príncipe. Como em todo romance, o sábio torna-se um
déspota, odiado por todos, que almejam vê-lo destronado.
“(...)
O leitor sabe que o rei
já próximo de ser finado
deixou um sábio na corte
como único encarregado
até quando o princepezinho
pudesse ser coroado”
Com
tantas idas e vindas, em meio aos assuntos que tocam a continuidade do romance.
Na página 10 informa:
“(...)
Leitor aqui faço ponto
neste assunto e me retiro
porque me vejo obrigada
navegar em outro giro
irei falar um momento
sobre o príncipe Valdomiro”
A
tal bruxa (figura esteriotipada da mulher fora dos padrões morais vigentes) também
odiava o rei por ter mandado jogar nas matas a criança. Então, entendendo ser
Valdomiro o mentor do feito, mandou sequestrá-lo e o transformou num monstro.
Então nosso narrador insere mais ingredientes de magia e encantamento a sua
narrativa.
O que permeia a
narrativa?
-
valores
do poder patriarcal, moral e repressivo;
-
a
já citada esposa-mãe – voltada para
a castidade do o lar, o marido e os afazeres domésticos “Oh! Mulher, esposa e mãe”;
-
a
mulher vinculada ao “mal”: a esposa adúltera, a filha desobediente e o
conseqüente castigo: a expulsão do núcleo familiar e social para uma vida
apontado como a “sina”, a “sorte” das serpentes do mal, em que só lhe
cabia a prostituição, qualificada como, meretriz, ingrata e suja;
-
a
mulher submetida às mais duras arbitrariedades e invasão de seu direito mais
básico: a condição humana;
-
ela
própria colocando-se na posição de infratora, transgressora, quando, na verdade
lhe são tirados os direitos à educação, ao conhecimento, à informação, que lhes
daria outra posição diante das “seduções”, de que são vítimas por ignorância.
Este quadro de violência leva a mulher a reproduzi-lo, delegando à sorte, à
sina, todo o repertório de violência a que é submetida. Observe:
“Foi vítima de sedução”
E
segue em sua culpabilidade:
“Ela ocultou-se do povo
para não à ver talvez”
Mais
adiante o castigo emocional é ainda mais severo e drástico. Dela retira o
direito ao afeto primordial – a amamentação
“E disse para o carrasco:
quando ela descansar
não terá nem o direito
de ao filho amamentar”
-
ainda
a mulher marcada pela dicotomia do BEM X MAL – a ingenuidade seduzida, e a
feiticeira, marcada por valores negativos, mas única capaz de rever o código
moral vigente, pela sagacidade e magia;
-
a
mulher como objeto de desejo e inspiração
“que até Venus invejava
a sua grande beleza
Somente
a partir da década de 90 com a plena expansão da mulher como contribuinte
social, seu papel torna-se mais ameno. Já neste momento com advento das grandes
mídias da comunicação social, o espaço para a participação da mulher com personalidade
“de ombro a ombro” com o homem, estes estigmas ficam de lado, mas... Nessa
altura os grandes romances já deixam de ser produzido.
A
proliferação das mídias tirou dos poetas o público leitor e ouvinte de
romances, não valia mais a pena editá-los, os custos não compensavam. Ficamos
assim com as composições de 8 e 18 páginas, voltando-se para os fatos
cotidiano, as narrativas de contos e causos, que levam ao leitor a
possibilidade de leitura rápida e também interessante face ao valor de cada
poeta, homens e mulheres.
E
de tanto ler e trabalhar com a literatura de cordel fui agraciada com o Prêmio
Mais Cultura, Edição Patativa do Assaré, 2010, com o folheto Catalogação de cordel, 2011
A
combinação com os deuses lhe garante o sucesso. Clic ou copie o link para ler o
folheto na íntegra.
Bibliografia:
C0805
Santos,
Manoel Camilo dos. A rainha da floresta.
Editor Proprietário: Manoel Camilo dos Santos. Campina Grande: A Estrella
da Poesia, 1958. 32 p
C0554
Barros,
Leandro Gomes de. Os martírios de
Genoveva. Editores proprietários: Filhos de José Bernardo da Silva.
Juazeiro do Norte: São Francisco, 1974. 48 p.
C6519
Pinto, Maria Rosário. Catalogação de cordel. Rio de Janeiro, RJ: Academia Brasileira de Literatura de Cordel, 2011. 16 p. 29 estrofes : sextilhas : 7 sílabas
Pinto, Maria Rosário. Catalogação de cordel. Rio de Janeiro, RJ: Academia Brasileira de Literatura de Cordel, 2011. 16 p. 29 estrofes : sextilhas : 7 sílabas
C6849
Pinto,
Maria Rosário. O poeta e o folheteiro: da edição à venda.
Campina Grande, PB: Cordelaria Poeta Manoel Monteiro, 2012. 12 p. 26 estrofes :
setilhas : 7 silabas
C6487
|
Maria
Rosário Pinto
Rio
de Janeiro, março 2012.





