Sorriso largo...

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Homenagem a José Bernardo da Silva & outros editores



            Acredito não ser possível falar de José Bernardo da Silva sem marcar a figura de Padre Cícero Romão Batista e sua unanimidade na cidade de Juazeiro do Norte (CE) e, em todo o Nordeste. Ir aos festejos do dia do romeiro em Juazeiro foi para mim algo absolutamente estarrecedor... Fui por curiosidade, mas não pude deixar de me impressionar com a força do mito que permanece vivo na memória popular, há mais de 100 anos, a figura do Padre Cícero Romão Batista (1844-1934).

            A pesquisadora Rosilene Alves de Melo narra, em sua tese vencedora do 1º Prêmio no Concurso Sílvio Romero, 2003, intitulada Memórias impressas: trajetória da literatura de folhetos em Juazeiro do Norte, publicada em livro intitulado Arcanos do verso: trajetória da literatura de cordel, 2010, relata o nascimento e a prosperidade da Tipografia São Francisco, evidenciando a saga de um homem que, de vendedor ambulante conquistou o patamar de um dos maiores editores de folhetos de cordel no Nordeste brasileiro. Juazeiro do Norte permanece como um mito vivo até nossos dias, guiada pela imponente figura do pequenino homem, Cícero Romão Batista. As histórias que rondam a memória popular são fielmente descritas pelos poetas populares, artistas responsáveis, em grande parte, pela áurea que envolveu os grandes acontecimentos da cidade. Poetas que emprestam seu talento na permanência do conhecimento oral: o mistério do milagre da hóstia – o encontro do Padre Cícero com o sangue de Jesus, pela boca da beata Maria de Araújo; a passagem de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva e seu bando de cangaceiros pela região (1926). Foram estes os assuntos mais “cantados” e publicados naquela ocasião.
           
            Ao assumir a cadeira de José Bernardo da Silva – nascido em Palmeira dos Índios (AL), em 02 de novembro de 1901, patrono da Cadeira nº 18, da Academia Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC, poeta popular e um dos maiores editores de folhetos de cordel do Nordeste, cujo centenário de seu nascimento foi celebrado em 2001, o fiz com alguns receios, pela força de seu nome. Entretanto, me vali de citação do saudoso acadêmico Francisco Silva Nobre, que na página 81, vol. 5, da Antologia Brasileira de Literatura de Cordel, 1998, afirma: A ABLC tem como finalidade reunir não apenas aqueles que se dedicam à literatura de cordel propriamente dita, mas também outras pessoas que, não a cultivando diretamente, a admiram e se dedicam ao seu estudo e divulgação.

            Zé, ou Zé Bernardo viveu no município de Vitória (PE), antes de radicar-se em Juazeiro do Norte, em 1926, atraído pela figura de Padre Cícero Romão Batista. Chega ao Juazeiro, como vendedor ambulante, que fazia o percurso das feiras nordestinas, inclui entre os produtos comercializados alguns folhetos de cordel. A iniciativa tem grande receptividade. Decide, então, tornar-se impressor. Adquire uma máquina de pedal e inicia os trabalhos de tipógrafo. Posteriormente, instala a Tipografia São Francisco. Ressaltamos, aqui, versos em que José Bernardo nos fala de seu ofício de tipógrafo, mas já, evidenciando-se como poeta de cordel:

"Não sou poeta vos digo,
Mas com rimas arranjo o pão.
Sou chapista e impressor,
Sou bom na composição.
O meu saber se irradia,
Conheço com perfeição
Agradeço esta opulência
À Divina Providência
E ao Padre Cícero Romão”

 Como o exemplo de João Martins de Athayde, Zé Bernardo, com o objetivo de preservar os seus direitos autorais, publicava as estórias constando apenas seu nome como Editor proprietário, o que nos dificulta a identificação precisa da autoria dos versos – se de Leandro Gomes de Barros, cujo acervo foi adquirido por Athayde, após a sua morte; se de Athayde, de quem José Bernardo comprou o acervo, que já veio mesclado com as obras de Leandro; e, os de sua própria autoria, conforme nos indica Sebastião Nunes Batista em Antologia da Literatura de Cordel, de 1977.
No folheto História da literatura de cordel, Rouxinol do Rinaré [José Antônio dos Santos], assinala o papel de Athayde como editor proprietário, quando da compra do acervo de Leandro, adquirido em 1921:

“João Martins de Athayde
Quando Leandro morreu
De sua esposa comprou
Parte do acervo seu
Dos direitos autorais
Fez o que bem entendeu”

José Bernardo torna-se um dos maiores editores de folhetos de cordel, especialmente, após ter adquirido milhares de títulos de propriedade de João Martins de Athayde, em 1949. A Tipografia São Francisco torna Juazeiro do Norte um dos maiores polos editoriais de folhetos de cordel. O trio Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde e José Bernardo da Silva consolidaram o tripé que norteou a criação, produção, distribuição e venda da literatura de folhetos no Nordeste. Suas identidades acabaram por misturar-se, deixando para os pesquisadores, dessa literatura, o estudo sobre a originalidade de cada autor; e, para os documentalistas, o cuidado de não inferir critério de avaliação autoral, restringindo-se às notas tipográficas evidenciadas no corpo da publicação. De todas as formas, o trabalho destes três homens foi de grande contribuição social, econômica e cultural para a região do Cariri. Cabe aqui, lembrar que toda essa movimentação editorial, que durou décadas, foi definitiva na geração de renda para várias famílias em toda a região e para além dela. Foi com a grande produção de folhetos que empregos foram gerados: auxiliares de tipografia (na composição gráfica); artesãos (na confecção de capas); cantadores e distribuidores de revenda (na comercialização em feiras, mercados e praças públicas). Os cantadores tiveram papel relevante, por emprestarem seu talento na arte de cantar, extraindo dos versos os segredos que incitavam à compra.

            Franklin Maxado Nordestino, em O cordel do cordel, 1982, informa sobre os primeiros editores e suas preferências por temas de caráter noticioso e pelos romances:

“(...)
Seus poetas são também
Editores e vendedores.
Saem lendo e cantando,
Procurando os leitores
Que gostam das novidades
E versos de mil amores.”

O poeta João José da Silva, fundador da Luzeiro do Norte, Recife (PE), também iniciou-se como revendedor/distribuidor, como nos informa o poeta Delarme Monteiro no folheto Nordeste, cordel, repente e canção, [19--]:
“(...)
Certo dia em meu balcão
Surgiu um tal João José
Numa roupinha “sambada”
Tamanco velho no pé
Perguntou pro meu irmão
O seu Delarme, quem é ?

Então eu me aproximei
A ele fui atender
João José me perguntou
- O senhor pode dizer
- Se aqui vende folheto
Para a gente revender”

Outros poetas foram também editores, xilógrafos e vendedores, como Minelvino Francisco Silva (1926-1999), conforme a citação abaixo:
“Fascinado pela arte da composição e da impressão tipográfica, adquiriu uma impressora manual onde confeccionava seus folhetos, inclusive as capas”, conforme mostra nos versos:
(...)
Eu mesmo escrevo a estória
eu mesmo faço o clichê
eu mesmo faço a impressão
            Eu mesmo vou vender
            e canto na praça pública
            para todo mundo ver.”

            Seu interesse o fez mudar para uma impressora elétrica, mas em 1979 sofreu um acidente, perdendo três dedos. Este fato não o impediu de continuar no ofício, pelo contrário, sua técnica foi aperfeiçoada, referindo-se ao episódio nos versos:

“No dia dez de outubro
Compus uma oração
Botei na máquina impressora
Para fazer a impressão
Em vez de imprimir o papel
Errei e imprimi a mão”.

            Publicou em várias tipografias e editoras como a Tipografia São Francisco, em Juazeiro do Norte (CE), a Prelúdio e a Luzeiro em São Paulo (SP).

            José Bernardo da Silva faleceu em 23 de outubro de 1972. A Tipografia São Francisco encerrou suas atividades em 1982, quando seu acervo e todo o equipamento foram vendidos para o Governo do Estado do Ceará.

            Quando compus o folheto sobre os grandes autores, editores, distribuidores e folheteiros, o fiz com a intenção de prestar homenagem a estes nomes que enriqueceram a literatura de cordel, com versos e muitas iniciativas que criaram uma verdadeira rede de produção, edição, e venda.

Pinto, Maria Rosário. O poeta e o folheteiroda edição à venda. Campina Grande, PB: Cordelaria Poeta Manoel Monteiro, 2012. 12 p. 26 estrofes : setilhas : 7 silabas. 
Capa: desenho (Dalinha Catunda)

 Bibliografia

Silva, Minelvino Francisco. Minelvino Francisco Silva. São Paulo: Hedra, 2000. 234 p. :il. (Biblioteca de cordel).

Silva, Minelvino Francisco. Peleja do filho do Cego Aderaldo com o filho de Zé Pretinho. São Paulo: Luzeiro Editora, 1957. 32 p.

Melo, Rosilene Alves de. Memórias impresas: trajetória da literatura de folhetos em Juazeiro do Norte. Rio de Janeiro, 2003. 209 f. Bibliografia: f. 190-209; 1º Prêmio no Concurso Sílvio Romero, 2003

Literatura popular em verso: estudos. São Paulo; Belo Horizonte: Ed. da Universidade de São Paulo; Itatiaia, 1986. 468 p. il. (Reconquista do Brasil. Nova Série, v. 94).

Batista, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977. xxvi, 395 p. il.

Franklin Maxado Nordestino [Franklin de Cerqueira Machado]. O cordel do cordel. São Paulo : [s.n.], 1982. 8 p.

Silva, Delarme Monteiro da. Nordeste, cordel, repente, canção. Bezerros: [s.n., 19--]. 16 p.



Maria Rosário Pinto
Cadeira nº 18 da ABLC
(José Bernardo da Silva)

terça-feira, 26 de junho de 2018

AS HERDEIRAS DE MARIA


Um belo resgate da história da produção da mulher na literatura de cordel. Maria das Neves Batista foi esta pioneira de que Dalinha Catunda fala com carinho e poesia da melhor qualidade. Ela merece todas as homenagens. Culta, bem informada e dona de uma rica poesia. Seu folheto O viulino do diabo ou o valor da honestidade é irretocável. Altino Alagoano,alcunha de Das Neves, em seu romance, deixa pistas de sua verdadeira identidade quando cria sua personagem Maria travestida de Mariano para ser aceita como artista pela sociedade em que vivia e, até nisso ela foi competente. Pioneira, abriu caminho para as mulheres da atualidade, por isto, somos mesmo Herdeiras de Maria.  AS HERDEIRAS DE MARIA
1
Começa assim a história
Do folheto feminino:
A mulher com sua manha,
Território o nordestino,
Com patriarcado vil,
Montou-se então um ardil,
Pra traçar nosso destino.
2
Lá pra mil e novecentos,
E trinta e oito asseguro,
Foi que a mulher editou,
E plantou para o futuro,
O folheto feminino,
Com o nome masculino,
Que hoje aqui emolduro.
3
Quando a mulher resolveu
Escrever o seu cordel,
Ainda meio acanhada...
Não quis botar no papel,
Seu santo nome de pia,
Porém foi uma Maria,
A primeira do painel.
4
Era Altino Alagoano
Que assinava a autoria.
A do primeiro folheto,
Que a mulher se atrevia
A escrever sem assinar
Para o marido alcunhar
Com nome de Fantasia.
5
E foi Maria das Neves,
A Batista Pimentel!
Que teve o afoitamento,
De publicar um cordel,
E mesmo não assumindo
O que estava produzindo
Na lavra do seu vergel.
6
Era Francisco das Chagas,
De sobre nome Batista,
Pai de Maria das Neves,
A primeira cordelista.
Ele foi um pioneiro,
Do folheto brasileiro,
Na arte especialista.
7
“O Violino do Diabo.
Ou o Preço da Honestidade”,
Foi o primeiro folheto,
Tornou-se até raridade,
Pela mulher concebido,
Como troféu exibido,
Prova viva da verdade.
8
Os folhetos que Das Neves,
Naquele tempo editava.
“Corcunda de Notre Dame”
Na sua lista constava,
E outros títulos mais,
Em obras universais,
Ela se fundamentava.
9
“O Amor Nunca Morre” é,
Também sua criação,
Mais um cordel que Maria,
Acresceu a coleção.
Sua rica trajetória
É um marco na história
Nobre contribuição.
10
Maria chega ao cordel,
E com personalidade.
Letrada, bem preparada,
Replena de habilidade.
Disfarçada ocupa espaço,
Dando seu primeiro passo,
Rumo à nova atividade.
11
E a ascensão do cordel,
Das Neves acompanhou.
A Popular Editora,
Foi o seu pai quem criou,
Instalada em João Pessoa,
Aquela ideia tão boa,
Maria testemunhou.
12
Para falar a verdade,
Testemunhou muito mais...
Só o homem editava!
Das mulheres, nem sinais.
Pode parecer incrível,
A mulher era invisível,
Continham seus ideais.
13
Só depois de muito tempo
A mulher entra em ação.
Tira o verso da gaveta
Mostra a sua produção.
Assumindo o seu lugar,
Na cultura popular,
Cumprindo sua missão.
14
Isso só aconteceu,
Entre sessenta e setenta,
A mulher com liberdade,
Depressa se reinventa.
Ela muda de postura,
Garante a assinatura,
No cordel que apresenta.
15
Chega de só propagar,
Saberes e tradição.
Chega de contar histórias,
Fazer adivinhação.
Com tanto conhecimento,
Afinal chega o momento,
De mudar de posição.
16
Já cansada de engolir,
O que tinha na garganta,
Cansada de ser a musa,
Às vezes puta ou santa,
Cansada de ser podada,
Encara nova jornada,
Assume seu verso e canta.
17
Uma luz no fim do túnel,
A mulher chega avistar.
Mas a estrada a seguir,
Ela tem que desbravar.
Porque é pura ilusão,
Sua ampla aceitação,
Não vamos nos enganar.
18
No mundo cordeliano,
Inda mora o preconceito.
Na produção feminina,
Muita gente põe defeito,
E perde a oportunidade,
De conhecer na verdade,
Cordéis com outro Conceito.
19
Do jeito que tem mulher
Escrevendo sem cuidado,
Tem homem que faz cordel
Sem entender do riscado,
Não venham com zombaria,
O dom da sabedoria,
Floresceu assexuado.
20
O mercado é escasso
Para a mulher cordelista.
Com o corporativismo
Nós somos poucas na lista.
Nos bancos de academia
Inda somos minoria,
Mas nos postamos na pista.
21
Corre o cordel feminino
Sem nenhuma timidez.
A mulher fortalecida,
Não espera, faz a vez.
Sabe que é competente,
Se a lacuna é existente
Preenche com vividez.
22
Aborda qualquer temática
Verseja com qualidade.
Se for para glosar, glosa!
Com muita propriedade.
Faz peleja virtual,
O seu mote é atual,
Essa é a realidade.
23
A cordelista zelosa
Que cumprem sua missão,
Sabe que o bom cordel
Em sua composição,
Boa rima deve ter,
A métrica é pra valer,
Ao compor sua oração.
24
Somos muitas escrevendo
Algumas com maestria.
Nosso cordel feminino,
É canto que contagia.
Abram alas pras guerreiras,
Somos poetas herdeiras,
As herdeiras de Maria!
*
Autora: Dalinha Catunda

domingo, 27 de maio de 2018

FEIRA NORDESTINA na UNISUAM

Convidada pela professora Veronica Carvalho compus o poema Feira Nordestina, que foi apresentado nos festejos de 10 anos do Curso de Gastronomia da UNISUAM, onde ela cursa a faculdade de Nutrição.

Verônica Carvalho declamou e cantou o poema com muita propriedade e luxo. Conheci Veronica em 2017 no Projeto de Oficinas Poesia EnCena, idealizado e realizado pela arte educadora, atriz e diretora teatral Beth Araújo. O projeto é apoiado pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.
O projeto existe há cinco anos e a partir dele, foi criado em 2018, o Grupo Teatral Mulheres no Cordel, com o propósito de trazer à luz a poesia feminina na literatura de cordel.  O espetáculo é dedicado às mulheres poetas de cordel, que de meados da década de 1970 até hoje vêm firmando seus nomes no cenário da literatura de cordel, um reduto marcado pela presença e domínio masculino.  


Feira nordestina
1
O Nordeste brasileiro
É celeiro cultural,
Também na alimentação,
Ele é referencial
Quando secam as barragens
Em tempos de estiagens
Queima o canavial.
2
A terra arde e resseca
A plantação fica escassa
A colheita é minguada
E também some a caça.
Sem acesso ao alimento,
Com fome e sem alento
O fogo é ameaça.
3
E durante o mês de junho
Mês de festa popular,
Que é patrimônio nosso,
Ela assume o seu lugar.
Firma nossa identidade
Em meio à festividade.
Que se deve preservar.
4
E no São João festejamos
Sempre com muita alegria
As colheitas do sertão,
Regadas com poesia
Seguindo a oralidade
Matando nossa saudade
Em noites de euforia.
5
Tem iguarias gostosas,
Milho cozido e assado,
Pamonha, batata doce,
Tem quentão bem apurado
Tem canjica com canela
Abarrotando a panela
E tudo vem do roçado.
6
Tem jabá com jerimum
Macaxeira e acarajé
Tem a buchada de bode
Fumaça na chaminé
E cuscuz de mandioca
A gostosa tapioca
A batata e o café.
7
Todo domingo acontece
A feira com cantoria
Feijão verde e de corda.
A peleja contagia
E no final de semana
Pastel e caldo de cana
Regados com poesia.
8
Moqueca de siri mole.
E são tantos os sabores
Queijo coalho e mungunzá
Cada qual com seus odores
Tem quentão e aluá
Tem cofo, tem caçuá
E frutos multicolores.
9
Nos meses de invernada
Temos frutos saborosos
Sapoti e bacuri
São frutos bem curiosos
Pitomba e carambola
Buriti e acerola
Chegam nos meses chuvosos.
10
No quintal da minha casa,
Sempre vi mamãe plantar
Graviola e abacaxi
Era rico o seu pomar.
Caju para a cajuína
Que só tem em Teresina.
Vale a pena visitar.
(Rosário Pinto/2018)

Nas fotos: Verônica, eu, professoras e vice-reitor da UNISUAM